Ilustração para um artigo sobre verbas públicas para o cinema
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segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010
terça-feira, 7 de julho de 2009
História de guerra
Bombas, foguetes, morteiros, granadas e tiros por todo lado.O bombardeio é pesado e incessante. Dia, noite, dia, noite, dia...
Esse já é o terceiro dia em que tentamos defender nossas posições e evitar que o inimigo tome esse vilarejo em que estamos. Em tempos de paz, esse povoado nem estaria no mapa, mas agora ele tem uma posição estratégica e vital nesse conlito.
Apesar disso, parece que fomos esquecidos pelo alto comando. Não existe mais esperança para nós. O exército inimigo está em maior número. Nossas linhas de comunicação foram cortadas, mas temos informações não-confirmadas de que eles estão nos atacando com três batalhões de infantaria, além de sei lá quantos tanques e todos os aviões que podiam lançar bombas em cima de nossas cabeças.
Nós estamos cansados, doentes e famintos. Estamos racionando as provisões que estão no fim. Os feridos se amontoam sobre nós e nós nos amontoamos em cima dos mortos. Eles servem, ao menos, para reforçar as trincheiras. Não sei como aguentamos o cheiro acre e azedo de carne apodrecendo. Talvez porque o cheiro da nossa própria morte se aproximando seja mais forte e anestesie nossos narizes.
É uma questão de (poucos) dias para que todos nós tenhamos caído.
O desespero me faz sair das trincheiras e tentar fugir. Corro entre as bombas que explodem a minha volta e os tiros que zunem nos meus ouvidos.
Consigo sair da vila e atrevesso uma pinguela corroída pelo tempo que se equilibra sobre um pântano cheio de corpos perdidos.
No meio da lama, várias tochas acesas bruxuleiam suas frágeis chamas acima do mofo e da umidade, sem iluminar muito.
Paro e olho.
Elas fazem parte de um conjunto de piras funerárias. À distância e no meio da escuridão, percebo que elas estão em torno de algumas figuras caídas. Uma a uma, eu as reconheço. São meus sonhos que estão lá sendo velados. Todos eles estão lá. Os mais importantes, os nem tanto, os mais queridos e desejados e até aqueles de ocasião.
Todos mortos.
Sinto como se estivesse no velório de um velho amigo.
Um só não.
De todos eles.
Os que eu tive e os que eu não tive.
Os amigos que eu queria ter e os que eu não fazia questão.
Dói muito.
Em cima da pinguela, no meio do caminho, eu sento e choro.
E espero também a minha hora.
Texto e imagem de Ilvan Filho
quarta-feira, 16 de julho de 2008
Paisagem
Depois de tudo, agora que não há nada mais a ser dito ou feito, não são os homens que dominam a terra, nem as baratas ou qualquer outro tipo de inseto. Depois de tudo, o mundo é tomado pela ferrugem. E tão somente por ela.
As máquinas sofisticadas e poderosas se vergaram diante dela.Os armamentos mortais e as bombas inclementes cairam e tombaram apodrecidos, completamente corroídos de ferrugem.
Um câncer que se espalha por todos os poros e todas as esquinas.
O horizonte esbranquiçado contrasta com as ferragens rubro-negras.Destroços de sonhos não realizados, escrombos de vidas abreviadas sem aviso.O sol não nasce mais.Mas todos os dias, ele morre quase sempre pontualmente. Envolto por uma grossa e baixa neblina que estruparia e envenenaria as narinas de quem minimamente a respirasse por um instante sequer.Por sorte, ou azar, não há mais ninguém em risco.O risco é uma possibilidade.E nesse mundo não existe mais possibilidade alguma.
Em cinco segundos, desceriam os créditos finais da película, as luzes se acenderiam e seria o fim da sessão.
Texto e imagem de Ilvan Filho
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